CyberHorus - A crônica de Tot Capítulo 3 - TriCell

17/11/20

Tot, o deus egípcio dos escribas é famoso pelos seus contos e crônicas, desta vez em conteúdo original, será iniciada uma série escrita que contará a história de um futuro distópico governado pelo misterioso Deus Hórus e suas células de poder.A história possui elementos Cyberpunk e Steampunk e contará uma jornada de autoconhecimento do misterioso Amon.Perdeu o capítulo anterior?

Capitulo 3 - TriCellOs deliciosos novos sabores do banquete de TriCell, deixaram de ter gosto na boca de Amon quando sua atenção foi toda para a presença imponente e resplandecente da deusa Hator em pessoa, sua estátua erguida no centro da célula era bela, mas não se comparava à presença de Hator.A filha de Hórus fazia jus ao seu título de deusa do amor e da fertilidade, seu corpo tinha grandes proporções, os seios eram fartos e seu quadril largo, sua pele escura como a de Hórus contrastava com a bela túnica branca e adornos dourados. Sua bela máscara cobria seu rosto, e ostentava a face de uma vaca branca com olhos negros como a noite, chifres grandes e também negros, com faixas douradas nas pontas. Embora tivesse cores, o capacete era claramente feito de metal, se ajustando perfeitamente ao seu rosto e seu corpo.Hator tinha uma aura que trazia paz aos que lhe olhavam, e sua voz tinha um timbre sedutor que vibrava com o metal de sua máscara. E ela fazia o discurso de boas vindas.- Bem vindos, escolhidos do Pai, aqui vocês farão parte deste grande organismo, vossa presença aqui nesta célula é fundamental para o funcionamento de sua hexacity. Após este banquete vocês serão conduzidos para setores diferentes para a realização de seu treinamento, assumirão suas funções e trabalharão pelo bem do organismo. Aqueles que não conseguirem se adaptar poderão voltar à suas casas livremente, mas os que ficarem, terão trabalhos mais dignos, viverão no conforto, sentirão sabores que nunca sentiram antes e tudo o que pedimos em troca é sua devoção e amor a Hórus.Não parecia uma proposta ruim, até o momento em que a Guarda Solar entrou no salão, um soldado para cada cidadão exceto os que haviam conquistado a sonhada aposentadoria, Hator declarou que os anciãos iriam seguir os guardas responsáveis pela escolda de três homens, entre eles Sinthemet. Amon não entendeu o motivo, mas antes que pudesse chegar perto de seu amigo, Hator virou-se e os soldados guiaram seus respectivos cidadãos para diferentes setores da Célula.Amon chegou com uma mulher chamada Hatset aos jardins de TriCell. Hatset era baixa, magra , sua trança lateral estava sobre seu ombro esquerdo, longos cabelos negros davam volume para sua trança, assim como os demais cidadãos de HexaTri, Hatset vestia uma roupa branca com detalhes pretos, seu vestido era longo e tinha duas fendas laterais.[caption id="attachment_3396" align="alignright" width="200"]

Hatset possui uma inteligência e capacidade dedutiva que a tornava especial dentre tantos escolhidos.[/caption]- Belo lenço. Ele não é daqui. - disse a bela mulher percebendo que as cores não eram as mesmas das vestimentas dos novos residentes de TriCell.- Obrigado, é a única coisa que me restou da minha antiga vida, não tive oportunidade de me despedir de minha mãe. - aquele pensamento foi o suficiente para fazer Amon sentir novamente os sintomas que sentira pelas manhãs, suas mãos suavam e seu coração começou a disparar, antes que começasse a sentir sua falta de ar e enfim colapsar, a doce voz de hatset soou no ambiente.- Acho que nos trouxeram aqui para que cuidemos dessas plantas, mas nunca vi nada parecido com isso em HexaTri, não sei se isso está vivo ou como manter essas belas cores.Neste momento, um homem chegou aos jardins, seu nome era Ramma, o bibliotec da célula, e disse aos dois jovens:- Vocês devem ser Hatset e Amon, fiquem tranquilos que cuidar desses jardins é a coisa mais fácil. A beleza dessas plantas é natural e para mantê-las vivas vocês devem frequentemente rega-las com água e uma vez por semana adubar a terra. - percebendo que os dois visivelmente estavam confusos, Ramma continuou - Eu sei que esses termos são novos para vocês, mas não precisam se preocupar, vou lhes ensinar tudo o que sei.Ramma então lhes ensinou como usar o sistema de irrigação, adubar a terra, fabricar compostos e como realizar procedimentos como colheita e poda das plantas, no tempo livre, o instrutor os levava para a grande biblioteca da célula, onde havia livros de todos os assuntos, mas eles sempre ficavam no setor de livros de botânica para aprender mais sobre os nomes e tipos de vida vegetal que havia lá. O processo se extendeu por alguns dias e Amon, sempre prestativo, não percebeu o tempo passar, Hatset, por outro lado, tinha uma visão mais ampla das coisas, observando o ambiente e as pessoas. Quando os dois ficaram sozinhos sem Ramma, que já julgava que os dois estavam prontos para cuidar sozinhos dos jardins, Hatset plantou a semente da dúvida no curioso Amon, por estar deslumbrado com as novidades, o jovem rapaz estava mais curioso com a nova diversidade biológica e cuidados do que com o perfeito ambiente que estavam inseridos.- Você não está achando tudo isso estranho? - começou Hatset.- O quê? - questionou Amon.- Não percebemos o dia passar, não há anciãos andando pela célula, não temos acesso aos outros setores da biblioteca. Ramma cuida sozinho daquele jardim enorme? Se ele tinha uma pessoa para ajudar, o que aconteceu? desde quando a gente começou não vejo todas aquelas pessoas que estavam conosco no banquete, as vezes há alguém aqui na biblioteca lendo sobre outros assuntos, mas em setores separados e isolados. Não sei se você percebeu, mas algo não está certo.- Na verdade eu estava tão preocupado em aprender mais sobre isso que não percebi essas coisas, até agora só senti falta do meu caro amigo Sinthemet, que desapareceu com os anciãos. Não sei onde ele pode estar, mas espero que ele esteja bem como nós. Agora vou prestar mais atenção ao redor. - concluiu Amon.Alguns minutos depois, Ramma chegou à biblioteca e disse aos aprendizes que a partir daquele dia, eles iriam trabalhar sozinhos no precioso jardim e que após a colheita, Ramma iria ser conduzido aos salões da aposentadoria descansar merecidamente com seu antigo parceiro.- Seu deleite deve estar tão intenso que após se aposentar, meu velho parceiro não veio nem fazer uma visita, espero que quando ele tenha se lembrado de mim após as colheitas, sempre mando os pêssegos mais suculentos pelo túnel da colheita, Tut adorava pêssegos. Ah! Que saudade dele! Nós éramos muito próximos... - Ramma então parou por um momento e continuou - Vamos à colheita!!Os três se conduziram ao grande pomar, separaram uvas, pêssegos, maçãs e perfumadas ameixas, as melhores futras, como sempre eram colocadas em caixas e separadas para suprir todas as células, as frutas de qualidade inferior, mas ainda sim suculentas e saborosas eram despejadas em túneis ligados à parte subterrânea que diziam ser o Oásis, lugar de descanso daqueles que alcançavam a aposentadoria, em pensar nisso, Amon riu, pois imaginou que seu amigo Sinthemet estaria trabalhando na cozinha para alimentar os anciãos, pois seu amigo adorava repartir comida, e agora, poderia não apenas repartir uma ração sem gosto, mas sim criar sabores e é claro, comer bastante, também.Os três concluíram o trabalho o mais rápido possível para que Ramma fosse ao seu merecido descanso, mas antes que pudessem ir ao refeitório para a refeição da tarde, um membro da Guarda Solar abordou Ramma e apenas disse:- Está na hora.Ramma se despediu de Hatset e Amon que o acompanharam até os portões que o levaria ao Oasis. Foi quando Amon viu algo que não podia crer, Sinthemet estava parado no primeiro degrau logo atrás do portão, seu amigo estava sem camisa, suado e abatido, ainda mantinha suas grandes proporções, mas nitidamente perdera peso, sua camiseta agora era um turbante que parecia lhe proteger do calor, da mesma forma que ele se vestia quando trabalhavam no canteiro de obras em HexaTri. Amon percebendo a dor e angústia do seu melhor amigo deu um passo a frente e seu rosto transparecia sua dor, revolta e dúvidas sobre a situação.Sinthemet, sentia-se assustado em ver seu amigo, mas não queria que Amon se envolvesse emproblemas e quando viu que o jovem rapaz iria correr em sua direção, Sin manteve o braço baixo e apenas levantou discretamente sua mão, ele acenou negativamente com a cabeça como quem diz "não faça isso, não se preocupe". Amon percebeu que a bota e a parte inferior da calça estavam sujas de sangue, a vontade de correr até seu amigo era grande e ele percebendo que não deveria fazer aquilo, apenas deu sua mão para Hatset e apertou, ela percebeu que algo estava acontecendo.- Calma... - falou baixo para Amon - Vamos descobrir o que está acontecendo, me encontra atrás dos pessegueiros depois que nos despedirmos.Ambos acenaram para Ramma que estava feliz demais para perceber que algo estava errado, ele ultrapassou o portão, o soldado ficou parado ao lado enquanto atrás dele o potão se fechava, neste momento, a expressão no rosto do velho jardineiro era de dor e medo, ele puxou o ar e antes que seu grito pudesse ser ouvido pela fresta, as placas de metal se fecharam.Momentos depois, Amon e Hatset se encontraram entre os pessegueiros e disfarçando pegando os frutos podres que caíram ao chão durante a colheita, eles conversaram brevemente.- Aquele era Sinthemet, meu amigo que lhe falei. - começou Amon - Ele estava diferente, estava triste, angustiado, tinha sangue em suas roupas, eu preciso ajuda-lo, preciso fazer alguma coisa. - Sua respiração estava encurtando.- Calma - disse Hatset - vamos ajudar seu amigo, durante a noite percebi que não há muitos soldados andando por aí, podemos distrair o guarda do portão e entrar no Oásis. Eles nos escolheram pela nossa devoção e lealdade, desde quando chegamos aqui estamos sendo convencidos de que isso é o melhor e que devemos ser gratos. Eles não acreditam que podemos cometer algum erro ou quebrar alguma regra. Eu tenho um plano.- Como traçou um plano tão rápido assim?- Sou esperta o bastante para traçar uma estratégia, precisamos fazer exatamente o que planejei, se não podemos ser pegos e algo de ruim pode acontecer com a gente, não podemos confiar em ninguém.Amon ouviu atentamente o plano de Hatset e decorou cada detalhe para executar as ações o mais rápido e efetivamente.Quando chegou próximo da hora de dormir, Amon montou com travesseiros e cobertas uma silhueta cobrindo com um lençol, para seus colegas de quarto acharem que ele havia dormido mais cedo, o jovem rapaz correu para o vestiário e se escondeu em seu armário quando ouviu seus colegas de quarto conversando.- Acho que Amon já foi dormir, tomou banho antes da gente de novo, ele acha que a gente não percebeu que ele é diferente. - disse o primeiro.- Aberração nojenta - concluiu o segundo enquanto os dois riam.Aquilo o fez sentir mais raiva, mas serviu como motivação para encontrar seu amigo que sempre esteve do seu lado, se algo estava errado ele enfrentaria a própria Hator para fazer justiça à devoção e lealdade de Sin.Amon encontrou Hatset próximo aos portões, ela carregava uma bolsa com caroços de pêssego e lhe entregou uma faca que usavam para cortar os caules das plantas de forma limpa para preparar para a nova colheita. Ela apontou para a esquerda e Amon viu que sua amiga arrastou uma lixeira para próximo do portão. A lixeira era grande, mas leve, pois era feita de um metal fino. Hatset pegou um caroço de pêssego e o jogou com toda sua força na lateral do compartimento de lixo que fez um barulho estrondoso. O Soldado deixou seu posto para investigar e os dois amigos correram para o portão, com muito esforço abriram uma brecha pequena, mas o bastante para passarem.Eles desceram a grande escadaria, o ar era quente e podiam ouvir gritos de dor, súplicas e lamentos. Ao pisarem no último degrau observaram um ambiente escuro, com cheiro de morte e podridão, as únicas luzes eram de fornos e fogo, máquinas a vapor processando matéria orgânica morta, Amon então viu seu melhor amigo. Sinthemet estava com um machado cortando o corpo de alguém e jogando em um grande processador, os sons eram de ossos se partindo e frutas esmagadas, toda a colheita destinada a alimentar os anciãos em descanso se uniam aos seus corpos em grandes máquinas que emanavam vapor quente e processavam a ração que era enviada a todas as Hexacities. Amon caiu de joelhos quando viu a cabeça de Ramma arremessada na grande máquina.Ao ouvir o barulho, Sinthemet virou-se e pôde ver Amon e Hatset estáticos de medo e dúvidas. Sin estava atônito e apenas lágrimas escorriam de seu rosto negro iluminado pelas chamas da grande caldeira.Continua...Por: Tot

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