CyberCrítica: Mortal Kombat, Mas o que Faltou?

25/4/21

Finalmente assistimos Mortal Kombat de 2021 e após imagens incríveis, trailers e vídeos espetaculares, a experiência visual e sensorial deste que promete ser o filme que dará fim à "maldição de filmes baseados em jogos" é... Lamentável.

Ao concluir o filme, temos a sensação de que falta algo e que há um vazio nos olhos dos fãs que queriam ver um aprofundamento nas histórias vistas nos games e muitos elementos essenciais para a construção desta história foram perdidos ou deturpados.

Se nos anos 90, Mortal Kombat era apenas um jogo para lutar, ver sangue jorrando e no final matar seu inimigo impiedosamente em Fatalities, Brutalities e Animalities, o jogo virou com o passar dos anos, quando a franquia passou a ser repetitiva nos games, ao mesmo tempo que os jogos eletrônicos foram ganhando uma construção mais cinematográfica, exigindo um roteiro mais elaborado para que assim a franquia Mortal Kombat passasse a acompanhar a indústria de jogos.

Tivemos a maior reviravolta em Mortal Kombat 9, quando o game sofreu um soft reboot após os eventos de Armageddon, pois, se o jogo anterior teve dezenas de personagens avulsos e uma história megalomaníaca, sua sequência nos mostrou uma visão mais "pé no chão", reiniciando a franquia e casando perfeitamente com os eventos de Mortal Kombat X e Mortal Kombat 11, devemos lembrar que antes disso as histórias não possuíam tanta conexão, nos entregando sequências confusas.

Com o amadurecimento da franquia nos games e uma melhor organização da riquíssima lore em torno do torneio Mortal Kombat, bastavam os roteiristas do longa reorganizarem e reestruturarem esta mitologia e fazer um filme épico, não é verdade?

Não de acordo com os executios da Warner, que aprovaram um roteiro totalmente diferente e alheio aos acontecimentos do game e neste ponto não estamos falando apenas de mudanças chave, mas de mudanças que mexeram na essência da história, nas fundações que estruturavam toda uma mitologia e com isso, os fãs da franquia sairam extremamente frustados desta bad trip que é Mortal Kombat.

Se você assistiu com a mesma visão que eu deve estar se perguntando: "Mas o que Faltou em Mortal Kombat?" e eu te respondo a seguir fazendo paralelos com o filme...

Quan Chi

Foto: Nether Realm Studios

Vamos começar do início. No ponto alto do filme, vemos Bi-Han e Hanzo se enfrentarem após a família do líder dos Shirai Ryu morrer nas mãos de Sub-Zero, este é um marco importante na franquia Mortal Kombat, pois mostra como o Feiticeiro Quan Chi se apossou da aparência de Bi-Han para assassinar a família de Hanzo, matando o ninja em seguida e bem posteriormente na lore de Mortal Kombat revelar-se como o verdadeiro assassino, que usou Scorpion como um defensor de Nether Realm.

Quan Chi é aquele tipo de personagem que se esconde nas sombras e manipula os acontecimentos a seu favor e confesso que até o final do filme esperiei alguma dica disso, mas de fato, Sub-Zero foi o real assassino da família de Hanzo e a presença de todo um pano de fundo que deveria envolver o feiticeiro é o Amuleto de Shinnok exposto no templo de Raiden ao alcande de qualquer um com más intenções ou simples ganância infantil como Kano. A ausência da manipulação de Quan Chi é algo que por si só já muda completamente a essência da obra original.

Interação entre Sonya e Jax

Foto: Nether Realm Studios

Uma das coisas que mais me espantaram durante o filme foi a ausência de preocupação de Sonya para com seu melhor amigo Jax, acima de qualquer relação profissional ou militar, os membros das Forças Especiais são grandes amigos, basicamente inseparáveis, todas as histórias desde os primeiros jogos da franquia Mortal Kombat sempre os colocam juntos ou associados.

O filme acerta e muito no visual e as atuações são impecáveis, tanto Mehcad Brooks quanto Jessica McNamee estão incríveis, possuem carisma e dão identidade aos personagens mas infelizmente o roteiro basicamente coloca Sonya como uma pessoa obcecada pela marca do dragão, não se preocupando nem um pouco quando Cole diz que Jax ficou para trás para enfrentar Sub-Zero, simplesmente seu mentor e melhor amigo ficou para morrer e ela apenas se deu conta de sua falta quando o encontrou no templo de Raiden.

Liu Kang

Foto: Nether Realm Studios

Sim, temos Liu Kang no film. Sim, ele é o Monge Shao Lin. E sim, definitivamente ele possui laços fraternos com Kung Lao, mas o grande defeito de Liu Kang neste filme é que ele não é o protagonista, não possui nenhum traço de sua predestinação a ser o maior dos guerreiros, ao invés disso, os roteiristas criaram uma profecia apenas para lançar o protagonismo aos pés de Cole Young.

Se tem algo que Mortal Kombat nos mostra desde seu primeiro título é que Liu Kang é quem possui todos os requisitos para se sagrar campeão do Mortal Kombat, além disso, em Mortal Kombat 11, Liu Kang alcançou o impossível e se tornou um deus. Infelizmente tudo tenta conspirar para que o monge assuma a frente como protagonista, mas a simples presença de Cole Young ofusca completamente qualquer chance de vermos o verdadeiro protagonista.

Raiden

Foto: Nether Realm Studios

Está certo que Raiden não pode interferir no torneio Mortal Kombat, pois é contra as regras, mas temos a revelação de que as nove vitórias da Exoterra foram conquistadas através de trapaça, sabemos que por muito menos, Raiden foi até os Deuses Anciãos pedir auxílio. Além disso, a construção do personagem no filme de 2021 não chega nem perto da impoência do Lord Raiden visto em qualquer outra mídia, até mesmo Christopher Lambert com seu look mendigo higlander impõe mais respeito e possui mais carisma que o personagem interpretado por Tadanobu Asano. Infelizmente o potencial do ator foi desperdiçado com um roteiro e produção preguiçosos e sem nenhuma pretenção de honrar o legado do personagem.

Bandidos Honestos

Foto: Nether Realm Studios

Se tem uma coisa que quase 30 anos de Mortal Kombat nos mostraram é que Shao Kahn e a Exoterra, mesmo do lado "errado" da história jamais quebraram as regras impostas pelos deuses anciões, inclusive a história mostrou que a desonestidade partiu dos próprios deuses, já que o que impedia Shao Kahn de invatir o plano terreno não eram as regras do Mortal Kombat e sim um feitiço conjurado pela Rainha Sindel.

Para conquistar a Terra vimos as forças da Exoterra fazer de tudo, entrar em uma corrida maluca pelo topo da pirâmide, escolher personagens extremamente apelões como Goro para disputar o Mortal Kombat, vimos até alianças mortais serem feitas (pega a referência), mas jamais vimos Shao Kahn buscar os defensores da Terra e exterminá-los antes da realização do torneio. E por falar em torneio, vamos falar da única coisa que faltou no filme do Mortal Kombat...

O Torneio Mortal Kombat

Foto: Midway

O filme se chama Mortal Kombat, vemos lutadores serem preparados para o torneio e somos apresentados à uma profecia que ligava um descendente de Hanzo Hasashi ao fim da sequência de vitórias de Outworld, mas não vimos nenhuma luta oficial do torneio, o campeonato que deveria ocorrer na ilha de Shang Tsung não ocorre no filme e vemos apenas uma história confusa e mal escrita para nos preparar para a próxima luta que é a única ligação deste filme com os jogos.

Assistindo Mortal Kombat tive a mesma sensação de quando vi Tekken há muitos anos atrás, o filme possuía uma história confusa, mas que apenas preparava o cenário para mais um confronto que aí sim tinha toda a característica dos jogos, é bem provável que se eu reassistir Tekken com a visão que tenho hoje o acabe achando melhor que Mortal Kombat 2021.

Considerações Finais

O novo Mortal Kombat não é um filme horrível como The King of Fighters, visualmente é bem atrativo e possui grandes momentos, devemos ressaltar que Sonya e Mileena não estarem sexualizadas como em Mortal Kombat 9 é um salto gigante, a direção e construção dos efeitos práticos são o ponto alto do filme, e como último ponto positivo devo confessar que o CGI é muito surpreendente para um filme de baixo orçamento.

Porém, os poucos pontos negativos são o suficiente para detonar o filme, o roteiro preguiçoso e a inclusão de um personagem totalmente original deixa tudo confuso e horrivelmente mal encaixado, Alice na franquia Resident Evil é Cole Young da franquia Mortal Kombat, talvez se o protagonista fosse Stryker, Kobra, Mavado, Hsu Hao ou até mesmo Mocap sua presença teria mais sentido na história.

Como comentários pessoais, Kabal ganhou meu coração e Reiko é um bombado burro, mal feito e com expressões faciais que dão muita vergonha alheia, ou seja, um simples mercenário asmático e deformado ser mais imponente e inteligente do que um dos maiores generais da exoterra mostra que os roteiristas não conhecem nada do universo Mortal Kombat, faltando assim ao menos uma consultoria a qualquer fã da franquia.

Por: PhMordred

As notícias mais quentes