Artigo: O que Aconteceu com a Comunidade Gamer no Brasil?

3/2/21

Os primeiros consoles de mesa foram inventados em 1958 pelo físico William Higinbotham, porém por ser um experimento no laboratório de pesquisas nucleares estadunidense, Higinbotham não levou os créditos quando os primeiros consoles foram patenteados.

Apenas em 1972 o primeiro console chamado Odyssey chegou ao mercado, iniciando a primeira geração do que hoje é algo popular no mundo todo, presentes em grande parte dos lares.

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No Brasil, os primeiros consoles a chegarem nas casas de uma parcela pequena da população foram os clássicos Atari 2600 e posteriormente o Nintendo Entertainment System, mais popularmente conhecido como Nintendinho, entre o final dos anos 80 e começo dos 90.

Mesmo nos anos 2000 com o fácil acesso à jogos eletrônicos em parte pela forte indústria pirata, ter um console e pagar para "destravá-lo" ainda era uma realidade para poucas pessoas, tornando o publico gamer muito restrito.

Hoje em dia é muito mais fácil termos acesso a consoles de qualidade como o PlayStation 4 e Xbox One, pois mesmo com os problemas financeiros dos últimos anos, o poder de compra do brasileiro aumentou relativamente antes disso. Mas a grande pergunta que levantamos é "como a Comunidade Gamer no Brasil se tornou tão tóxica?".

Vamos voltar aos anos 90/00, quando vosso humilde redator era apenas um garotinho juvenil.

Nunca fui filho de pais ricos e por isso, meu primeiro console foi um Mega Driver, lançado no Brasil 3 anos antes de eu nascer, mas chegando em minhas mãos em 1998. Naquela época, video games eram aparelhos comumente associados à crianças solitárias e sem amigos, a maioria das pessoas tinham apenas um controle e poucos jogos, mas serviam para distrair as crianças que geralmente eram perseguidas e humilhadas na escola.

Como não tinha nenhum cartucho, toda sexta-feira eu ia com meu pai alugar jogos em uma locadora perto da escola, por ser um console bastante obsoleto, eu era o único que alugava fitas de Mega Drive, tendo à minha disposição os jogos que eu queria como Super Chase.

Os anos passaram e quando o PlayStation 2 foi lançado finalmente meus pais me deram o PS One, obviamente "destravado" e foi graças à este console que tive a oportunidade de conhecer novas pessoas, novos amigos e conhecer jogos incrivelmente mais elaborados. Nesta época, trocávamos jogos, revistas e experiências, mas ainda éramos uma parcela pequena dos alunos da escola, sempre sofrendo os mesmos ataques e comentários maldosos de outros adolecentes, adultos e até mesmo da Televisão.

Hoje, muitas gerações depois, vemos acontecer o contrário, com a popularização de grupos e fórums, a comunidade gamer não só no Brasil, mas no mundo todo pôde se unir aos seus semelhantes e ter mais voz, mais força e com isso derrubar o preconceito e desinformação que muitas pessoas que eram contra os video games propagavam nas ruas e até mesmo na televisão.

Mas ao invés de vermos finalmente uma comunidade unida, que luta contra a desinformação propagada em tantos anos de propaganda negativa da televisão brasileira, vemos que uma pequena parcela da comunidade gamer no Brasil faz muito barulho influenciando pessoas uma vez marginalizadas que agora sentem-se no lugar de direito de replicar comportamentos que antes sofria da sociedade.

Mas por quê isso acontece?

Como dizia o educador brasileiro referência no mundo, Paulo Freire, "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor". Irônicamente, nosso sistema educacional não nos influencia a ter um pensamento crítico e por isso todos os elementos da escola possui como objetivo nos preparar para a operação industrial, ou unicamente o trabalho cego.

Desde as carteiras enfileiradas como em linha de produção e o silêncio absoluto para que apenas o professor, dono da verdade absoluta fale nos prepara para trabalharmos em locais organizados como mesas enfileiradas ou operação de fábricas, sempre em silêncio ouvindo os titulares de cargos superiores, porque como a ordem natural sugere, "o gerente sabe mais que o encarregado, que sabe mais que o funcionário".

Embora muitos professores lutem contra esse tipo de sistema engessado, nosso currículo básico de educação e estrutura da maioria das escolas nos moldam para este tipo de cenário, então ao invés de questionarmos nosso comportamento e os acontecimentos do passado que nos formaram desta maneira, simplesmente replicamos comportamentos que sofremos ou testemunhamos durante a vida.

Grandes exemplos disso na comunidade gamer é que após a união definitiva dos jogadores em grupos e fórums, ainda é muito difícil vermos mulheres se expressarem livremente em sessões online de seus games favoritos ou em outros meios da indústria dos jogos eletrônicos, isso porquê o acesso de garotas aos video games sempre foi mais restrito pela construção social que coloca os jogos como sendo algo "de menino".

Hoje em dia temos grande parte do público gamer composto por mulheres, mas mesmo assim jogam com char masculino ou não se expressam em partidas, pois isso pode arriscar seu progresso no jogo, ou lhe tirar a paz, quem tratar a mulher bem, ou normalmente é taxado como "biscoiteiro" ou outros termos perjorativos e para não sofrerem este tipo de ataques, os homens se juntam à horda de detratores ou se omitem, dando ainda mais voz à parte tóxica desta comunidade.

Outro comportamento replicado desta estrutura de nosso sistema educacional no mundo dos jogos eletrônicos é o "respeito" à quem joga a mais tempo, ou seja, somos condicionados a aceitar asneiras ditas por outros jogadores que estão melhor ranqueados ou que jogam a mais tempo, tendendo a aceitar qualquer comportamento ou fala vinda deste "detentor do saber" irrestritamente, mesmo que isso vá contra ideais próprios ou mesmo que não esteja dentro do que é ética e moralmente correto.

Neste vídeo acima vemos que mesmo há dois anos a mídia ainda marginalizava a comunidade gamer.

Como podemos mudar isso?

Infelizmente é muito difícil mudar este tipo de comportamento destrutivo de uma hora para outra, mas o mais importânte é não desistir de tentar, muitos portais e canais de comunicação já mudaram seus discursos para abraçar a inclusão e integração de pessoas marginalizadas nesta comunidade que já foi muito marginalizada na sociedade. Muitas empresas que desenvolvem jogos eletrônicos também buscam mudar suas estruturas para criarem jogos cada vez mais inclusivos e representativos.

Ainda que este tipo de atitude seja muito bem-vinda e empodere pessoas que precisam desse tipo de representação, a mudança não ocorre se isso for feito apenas para explorar o potencial consumista deste público, pois infelizmente grandes corporações precisam manter este público marginalizado para se manterem no topo da hierarquia social, porém, estas ações "lacradoras" servem para manter quem está no meio de tudo isso alheio às posições de cada grupo, sem o senso crítico citado acima.

Sem este senso crítico, podemos nos conformar que colocar personagens LGBTQIA+ nos jogos já é o bastante para ajudar a comunidade LGBTQIA+, quando na verdade ajudar esta comunidade com ações sociais daria mais resultados para sua aceitação e integração à sociedade, criar jogos com esta temática sem elaborar ações de inclusão e integração é apenas uma forma de explorar o consumo deste grupo, enquanto desperta mais ódio da parte preconceituosa da comunidade gamer que acha que está perdendo espaço.

Este vídeo acima, mais recente, possui um ano e o cenário é o mesmo, somos mal vistos e marginalizados. Enquanto a comunidade gamer oprime e marginaliza seus próprios membros, ao invés de se unir e fortalecer.

Conclusão

Em conclusão, a mensagem que gostaria de passar à comunidade gamer que se acha no direito de expressar discursos excludentes e prejudiciais é que não devemos enxergar grupos marginalizados como pessoas que irão tomar nosso lugar na comunidade gamer, sim, por muitos anos esta comunidade foi majoritariamente formada de homens heterossexuais, mas antes de sermos vistos no passado como homens heterossexuais, éramos tão marginalizados e excluídos quanto este que excluímos e marginalizamos.

Ter mais presença feminina ou LGBT na comunidade gamer não irá te tornar parte de uma comunidade feminista ou LBGTQIA+, irá apenas te manter na mesma comunidade gamer, mas uma comunidade mais harmoniosa e justa, calando a boca daqueles que um dia duvidaram do poder que o mercado de jogos eletrônicos teriam no mundo e na sociedade.

Se hoje vemos uma minoria barulhenta e representativa, em silêncio, a maioria desta comunidade se apoia e ajuda mulhões de pessoas no mundo a encontrarem novos amigos, superarem problemas mentais, abandono e até mesmo fortalecer os que antes não tinham voz, mas isto pode ficar ainda melhor se trouxermos esta mesma empatia e respeito aos membros LGBT, Negros, Mulheres e Estrangeiros, não temos nada a perder, a não ser nossa ignorância e conceitos mal formados sobre estas pessoas.

Por: PhMordred

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